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IRF3205 Mosfet and the science behind

IRF3205 Mosfet and the science behind

Se você já viu uma placa eletrônica de fonte, nobreak, inversor, controlador de motor, módulo automotivo ou equipamento industrial, provavelmente encontrou componentes pretos com três terminais presos a dissipadores de calor. Muitos deles são MOSFETs.

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O MOSFET é uma das peças mais importantes da eletrônica moderna. Ele pode ligar e desligar motores, lâmpadas, resistências, transformadores, solenoides e várias outras cargas. Também é utilizado dentro de fontes chaveadas, conversores de tensão, inversores, pontes H, amplificadores e controladores PWM.

Neste artigo, aprenderemos o funcionamento dos MOSFETs utilizando o IRF3205 como exemplo. A proposta não é apenas decorar os números desse componente. O objetivo é compreender o significado de cada informação para que, ao final, você consiga abrir o datasheet de praticamente qualquer MOSFET de potência e fazer as perguntas certas.

A ideia mais importante deste artigo: um MOSFET não é escolhido apenas pela tensão e pela corrente impressas no datasheet. Ele precisa receber o acionamento correto no gate, permanecer dentro da área segura e conseguir eliminar o calor produzido durante o funcionamento.

1. Antes de tudo: para que serve um MOSFET?

Imagine que você queira ligar uma lâmpada de 12 V utilizando um microcontrolador, como ESP32 ou STM32. O GPIO do microcontrolador consegue produzir um sinal lógico, mas não consegue fornecer diretamente toda a corrente exigida pela lâmpada.

O microcontrolador precisa, então, controlar um componente mais forte. Esse componente recebe uma pequena ordem elétrica e abre ou fecha o caminho da corrente da carga. O MOSFET pode exercer exatamente essa função.

flowchart LR
  A["Microcontrolador"] --> B["Driver de gate"]
  B --> C["Gate do MOSFET"]
  C --> D{"MOSFET ligado?"}
  D -->|Sim| E["Corrente passa pela carga"]
  D -->|Não| F["Corrente é interrompida"]
O microcontrolador envia apenas o comando; a energia da carga vem da fonte de potência.

Podemos imaginar o MOSFET como uma porta eletrônica:

  • o gate recebe o comando;
  • o drain recebe a corrente vinda da carga;
  • o source fornece o caminho de saída da corrente;
  • a tensão entre gate e source decide o quanto a porta será aberta.

Essa analogia ajuda no início, mas existe uma diferença fundamental: uma porta comum fica aberta ou fechada. Um MOSFET também pode ficar parcialmente ligado. Quando isso acontece enquanto circula uma corrente elevada, ele pode aquecer muito rapidamente.

2. O que significa a palavra MOSFET?

MOSFET é a abreviação de Metal-Oxide-Semiconductor Field-Effect Transistor, ou transistor de efeito de campo metal-óxido-semicondutor.

O nome parece complicado, mas descreve a maneira como o componente é construído e controlado:

  • Metal: historicamente relacionado ao eletrodo de gate;
  • Oxide: camada isolante entre o gate e o semicondutor;
  • Semiconductor: material no qual o canal de condução é formado;
  • Field Effect: um campo elétrico controla a passagem da corrente;
  • Transistor: componente capaz de controlar uma corrente maior por meio de um sinal menor.

O IRF3205 é um MOSFET de potência de canal N e modo de enriquecimento. Em linguagem simples:

  • é feito para controlar potências relativamente elevadas;
  • utiliza elétrons como principais portadores no canal;
  • fica normalmente desligado quando não existe tensão adequada no gate;
  • precisa que o gate fique positivo em relação ao source para ligar.

3. Conhecendo Gate, Drain e Source

Os três terminais de um MOSFET são normalmente identificados pelas letras G, D e S.

Letra
Nome
Função intuitiva
G
Gate
Recebe a ordem de ligar ou desligar
D
Drain
Recebe a corrente convencional vinda da carga
S
Source
Fornece o caminho de retorno da corrente

No IRF3205 em encapsulamento TO-220AB, olhando o componente de frente, com a inscrição voltada para você e os terminais apontando para baixo, a ordem é:

  1. Gate;
  2. Drain;
  3. Source.

A aba metálica traseira também está conectada eletricamente ao Drain. Essa informação é importante ao prender o componente em um dissipador. Dois MOSFETs presos diretamente ao mesmo dissipador podem ter seus drains conectados sem que o projetista perceba.

Representação simbólica do MOSFET IRF3205 com Gate, Drain e Source
Símbolo simplificado de um MOSFET de potência de canal N.

4. Como a tensão no gate cria um caminho para a corrente?

O gate é eletricamente isolado do restante do componente por uma camada extremamente fina de material isolante. Quando aplicamos uma tensão positiva no gate em relação ao source, surge um campo elétrico dentro do MOSFET.

Esse campo elétrico organiza cargas no semicondutor e forma um canal condutor entre drain e source. Quanto mais adequado for o acionamento do gate, melhor será a formação desse canal.

A tensão importante não é simplesmente a tensão do gate em relação ao terra. É a tensão do gate em relação ao source:

VGS=VGVSV_{GS}=V_G-V_S

Se o source estiver conectado ao GND, um gate em 10 V produz:

VGS=100=10VV_{GS}=10-0=10\,V

Mas imagine um MOSFET high-side cujo source subiu para 12 V. Se o gate também estiver em 12 V:

VGS=1212=0VV_{GS}=12-12=0\,V

Nesse caso, embora o gate esteja em 12 V em relação ao terra, ele está em 0 V em relação ao source e o MOSFET não está corretamente ligado.

Sempre pense em Gate menos Source. O MOSFET não sabe onde está o terra do seu circuito; ele responde à diferença de potencial entre seus próprios terminais.

5. As três situações fundamentais do MOSFET

flowchart TD
  A["Aplicar VGS"] --> B{"Qual é a tensão?"}
  B -->|Abaixo do limiar| C["MOSFET desligado"]
  B -->|Próxima do limiar| D["MOSFET parcialmente ligado"]
  B -->|Tensão especificada| E["Canal fortemente formado"]
  D --> F["Pode haver muito aquecimento"]
  E --> G["Baixa resistência de condução"]
O MOSFET pode estar desligado, parcialmente ligado ou plenamente acionado.

5.1 MOSFET desligado

Com tensão insuficiente no gate, o canal não está formado adequadamente. A resistência entre drain e source é muito alta e passa apenas uma pequena corrente de fuga.

5.2 MOSFET parcialmente ligado

Nessa situação, o canal começou a aparecer, mas ainda oferece resistência considerável. Existe corrente e, ao mesmo tempo, uma queda de tensão importante sobre o MOSFET.

A potência transformada em calor é:

P=VDSIDP=V_{DS}\cdot I_D

Se houver 10 V sobre o MOSFET e uma corrente de 20 A:

P=1020=200WP=10\cdot20=200\,W

Mesmo que 10 V e 20 A pareçam valores inferiores aos máximos do IRF3205, a combinação produz 200 W instantâneos. Dependendo da duração, isso pode destruir o componente.

5.3 MOSFET plenamente acionado

Quando o gate recebe a tensão prevista pelo fabricante, o canal fica fortemente formado e o MOSFET passa a se comportar aproximadamente como uma resistência pequena.

VDS=IDRDS(on)V_{DS}=I_D\cdot R_{DS(on)}

Essa é a região desejada quando o MOSFET trabalha como uma chave ligada.

6. A grande armadilha: VGS(th) não é a tensão para ligar o MOSFET

O datasheet do IRF3205 apresenta uma tensão de limiar, chamada VGS(th), entre 2 V e 4 V.

Uma leitura apressada pode levar à seguinte conclusão:

“Se o MOSFET começa a ligar entre 2 e 4 V, então um GPIO de 3,3 V consegue ligá-lo completamente.”

Essa conclusão está errada.

O fabricante mede VGS(th) com uma corrente de drain de apenas 250 microampères:

250μA=0,00025A250\,\mu A=0{,}00025\,A

Isso representa somente o início da formação do canal. Não demonstra capacidade de conduzir 1 A, 10 A ou 50 A com pouca perda.

No IRF3205, a baixa resistência é garantida com:

  • VGS = 10 V;
  • ID = 62 A;
  • condições específicas de pulso e temperatura.

Portanto, o IRF3205 é um MOSFET de acionamento de gate padrão. Ele não deve ser tratado como um componente logic-level de 3,3 V.

Como reconhecer um MOSFET logic-level?

Procure na tabela do datasheet uma resistência RDS(on) garantida exatamente na tensão que você pode aplicar:

  • RDS(on) em 10 V: acionamento padrão;
  • RDS(on) em 4,5 V: normalmente adequado para lógica de 5 V;
  • RDS(on) em 2,5 V ou 1,8 V: adequado para tensões lógicas menores;
  • somente uma curva típica em 3,3 V: não é uma garantia.

7. O gate consome corrente ou não?

É comum ouvir que “MOSFET não consome corrente no gate”. Essa frase é parcialmente verdadeira.

Quando o gate permanece parado em uma tensão contínua, existe apenas uma corrente de fuga muito pequena. Porém, para mudar a tensão do gate, o circuito de controle precisa carregar ou descarregar cargas elétricas armazenadas nas capacitâncias internas.

Podemos imaginar o gate como um pequeno reservatório:

  • para ligar, o driver enche o reservatório;
  • para desligar, o driver esvazia o reservatório;
  • quanto maior a vazão do driver, mais rápida será a mudança;
  • se o enchimento for lento, o MOSFET permanece parcialmente ligado por mais tempo.

O IRF3205 possui, no datasheet utilizado neste artigo:

  • carga total de gate Qg de até 146 nC;
  • carga Gate–Source Qgs de até 35 nC;
  • carga Gate–Drain Qgd de até 54 nC.

A corrente média necessária para movimentar a carga do gate é:

IG(avg)=QGfsI_{G(avg)}=Q_G\cdot f_s

Em 20 kHz:

IG(avg)=146nC20kHz=2,92mAI_{G(avg)}=146\,nC\cdot20\,kHz=2{,}92\,mA

A corrente média é pequena, mas a corrente de pico necessária durante cada transição pode atingir centenas de miliampères ou alguns ampères.

Uma estimativa simples do tempo de carga é:

tQGIGt\approx\frac{Q_G}{I_G}

Com um driver capaz de fornecer 1 A:

t146nC1A=146nst\approx\frac{146\,nC}{1\,A}=146\,ns

Com apenas 10 mA:

t146nC10mA=14,6μst\approx\frac{146\,nC}{10\,mA}=14{,}6\,\mu s

Esse cálculo é uma aproximação, mas deixa claro por que um driver de gate pode ser necessário mesmo que o gate praticamente não consuma corrente depois de carregado.

8. O que é o efeito Miller?

Durante a ligação do MOSFET, a tensão do gate não sobe de maneira perfeitamente contínua. Em determinado momento ela parece permanecer quase parada, formando o chamado platô Miller.

flowchart LR
  A["Gate começa a carregar"] --> B["VGS atinge o limiar"]
  B --> C["ID começa a crescer"]
  C --> D["Platô Miller"]
  D --> E["VDS diminui"]
  E --> F["VGS sobe até 10 V"]
  F --> G["MOSFET plenamente acionado"]
Durante o platô Miller, a corrente do driver é utilizada principalmente para alterar a tensão Drain–Source.

Durante o platô, a carga fornecida ao gate está sendo utilizada principalmente para alterar a tensão Drain–Source por meio da capacitância Gate–Drain.

A carga dessa etapa é representada por Qgd. Um Qgd elevado tende a exigir mais esforço do driver e pode aumentar o tempo de comutação.

9. Para que serve o resistor de gate?

Um resistor é normalmente colocado entre a saída do driver e o gate. Ele ajuda a controlar:

  • corrente de pico do driver;
  • velocidade de ligação e desligamento;
  • dv/dt;
  • di/dt;
  • ringing;
  • interferência eletromagnética;
  • oscilações provocadas por indutâncias parasitas.

Um resistor menor torna a comutação mais rápida, mas pode aumentar ringing e EMI. Um resistor maior suaviza a transição, mas aumenta o tempo em que o MOSFET fica parcialmente ligado.

Para uma primeira montagem de baixa frequência, um valor entre 10 Ω e 22 Ω pode servir como ponto de partida. O valor definitivo precisa ser ajustado por cálculo e medição com osciloscópio.

Acionamento básico do gate do IRF3205 por um driver
O resistor RG limita a corrente de pico e RGS mantém o MOSFET desligado quando o driver está desconectado.

10. RDS(on): a resistência do MOSFET ligado

Quando está plenamente ligado, o IRF3205 não se transforma em um fio perfeito. Ele apresenta uma pequena resistência entre drain e source.

O datasheet especifica:

RDS(on)8mΩ=0,008ΩR_{DS(on)}\leq8\,m\Omega=0{,}008\,\Omega

Essa garantia é válida nas condições indicadas pelo fabricante, especialmente com VGS = 10 V.

A perda de condução pode ser estimada por:

Pcond=IRMS2RDS(on)P_{cond}=I_{RMS}^{2}\cdot R_{DS(on)}

Exemplo com 10 A

Pcond=1020,008=0,8WP_{cond}=10^2\cdot0{,}008=0{,}8\,W

Exemplo com 30 A

Pcond=3020,008=7,2WP_{cond}=30^2\cdot0{,}008=7{,}2\,W

Exemplo com 60 A

Pcond=6020,008=28,8WP_{cond}=60^2\cdot0{,}008=28{,}8\,W

Quando a corrente dobra, a perda não apenas dobra: ela fica aproximadamente quatro vezes maior.

flowchart TD
  A["Corrente aumenta"] --> B["Perda I²R aumenta"]
  B --> C["Junção aquece"]
  C --> D["RDS(on) aumenta"]
  D --> B
O aumento de corrente provoca um ciclo de aquecimento que precisa ser controlado.

11. A temperatura aumenta a resistência

O valor de 8 mΩ é especificado próximo de 25 °C. Quando a junção aquece, a resistência do canal aumenta.

O gráfico de resistência normalizada do datasheet utiliza o valor 1 em 25 °C. Se em outra temperatura o gráfico indicar 1,6, significa que a resistência ficou aproximadamente 1,6 vez maior:

RDS(on),T=RDS(on),25CFTR_{DS(on),T}=R_{DS(on),25^\circ C}\cdot F_TRDS(on),T=8mΩ1,6=12,8mΩR_{DS(on),T}=8\,m\Omega\cdot1{,}6=12{,}8\,m\Omega

Perto de 175 °C, a curva típica do IRF3205 aproxima-se de cerca de duas vezes a resistência em 25 °C. Para uma estimativa conservadora:

RDS(on),quente16mΩR_{DS(on),quente}\approx16\,m\Omega

Com 30 A:

Pcond,quente=3020,016=14,4WP_{cond,quente}=30^2\cdot0{,}016=14{,}4\,W

O componente que dissipava 7,2 W a frio pode aproximar-se de 14,4 W quando muito quente. Por isso o projeto deve considerar a resistência na temperatura de trabalho, e não somente o número destacado na primeira página.

12. Por que o IRF3205 diz suportar 110 A?

O datasheet informa corrente contínua de drain de 110 A com o case em 25 °C. Porém, uma nota informa que o encapsulamento limita a corrente a 75 A.

Os 110 A resultam de um cálculo baseado na resistência elétrica, na resistência térmica e na temperatura máxima da junção. Esse valor pressupõe condições quase ideais:

  • case mantido em 25 °C;
  • gate corretamente acionado em 10 V;
  • dissipação térmica muito eficiente;
  • trilhas, cabos e conexões de resistência extremamente baixa;
  • ausência de picos perigosos;
  • temperatura da junção dentro do limite.

Na prática, a corrente pode ser limitada antes disso pelos próprios terminais, soldas, trilhas, conectores, cabos, dissipador e temperatura ambiente.

O número 110 A não significa “ligue uma carga de 110 A e pronto”. Ele significa “esse é um limite obtido sob condições específicas que também precisam ser satisfeitas”.

13. A corrente pulsada de 390 A

O parâmetro IDM = 390 A representa corrente pulsada. Ele não autoriza a passagem de 390 A por qualquer duração.

A validade depende de:

  • largura do pulso;
  • tempo entre pulsos;
  • temperatura inicial;
  • tensão Drain–Source;
  • área segura de operação;
  • impedância térmica transitória;
  • limites físicos do encapsulamento.

Uma corrente pulsada muito alta durante poucos microssegundos é uma situação completamente diferente da mesma corrente durante 100 milissegundos.

14. A tensão máxima de 55 V

O IRF3205 apresenta:

VDSS=55VV_{DSS}=55\,V

Esse é o limite absoluto de tensão entre drain e source com o gate desligado. Não é uma tensão normal de trabalho recomendada.

Em uma fonte nominal de 24 V, por exemplo, uma bobina pode produzir picos muito superiores a 24 V quando é desligada. A indutância dos cabos e trilhas também pode criar overshoot e ringing.

O projetista deve considerar:

  • tensão nominal;
  • máxima tensão real da fonte;
  • picos da carga;
  • transientes externos;
  • tolerâncias;
  • margem de segurança.

Em sistemas de 12 V, o IRF3205 normalmente possui margem razoável quando há proteção adequada. Em 24 V, deve-se analisar cuidadosamente os transientes. Em barramentos de 48 V, 55 V geralmente oferece margem insuficiente.

15. A tensão máxima de gate é ±20 V

O datasheet estabelece:

20VVGS+20V-20\,V\leq V_{GS}\leq+20\,V

Esse é o limite absoluto da fina camada isolante do gate. Não é uma recomendação para acionar o IRF3205 com 20 V.

Um acionamento típico utiliza 10 V ou 12 V. Em circuitos sujeitos a ringing, podem ser acrescentados:

  • resistor de gate;
  • resistor Gate–Source;
  • zener de 12 V ou 15 V entre Gate e Source;
  • layout curto e bem organizado;
  • driver colocado próximo ao MOSFET.

16. O que é junção e por que ela pode estar mais quente que o encapsulamento?

A junção é a região ativa do chip de silício dentro do componente. É nela que a potência elétrica se transforma em calor.

O case pode estar em 60 °C enquanto a junção está consideravelmente mais quente. O datasheet representa a dificuldade de o calor atravessar os materiais por meio de resistências térmicas.

Para o PDF do IRF3205 utilizado aqui:

  • RθJC = 0,75 °C/W: junção até o case;
  • RθCS ≈ 0,50 °C/W: case até dissipador em condição indicada;
  • RθJA = 62 °C/W: junção até o ambiente em condição padronizada.

Se conhecemos a temperatura do case:

TJ=TC+PDRθJCT_J=T_C+P_D\cdot R_{\theta JC}

Com case em 60 °C e dissipação de 20 W:

TJ=60+200,75=75CT_J=60+20\cdot0{,}75=75^\circ C

Para o sistema térmico completo:

TJ=TA+PD(RθJC+RθCS+RθSA)T_J=T_A+P_D\left(R_{\theta JC}+R_{\theta CS}+R_{\theta SA}\right)

Em que:

  • TJ: temperatura da junção;
  • TA: temperatura ambiente;
  • RθJC: junção-case;
  • RθCS: case-dissipador;
  • RθSA: dissipador-ambiente.

17. Por que o datasheet apresenta 200 W?

Na revisão de 2010, a potência máxima é calculada mantendo o case idealmente em 25 °C:

Pmax=TJ(max)TCRθJCP_{max}=\frac{T_{J(max)}-T_C}{R_{\theta JC}}Pmax=175250,75=200WP_{max}=\frac{175-25}{0{,}75}=200\,W

O número está matematicamente correto para a condição definida. Porém, manter a aba do componente em 25 °C enquanto 200 W atravessam o encapsulamento exigiria um sistema de refrigeração muito especial.

Sem dissipador, usando o valor aproximado de 62 °C/W, apenas 2 W já produziriam teoricamente:

ΔT=262=124C\Delta T=2\cdot62=124^\circ C

Com ambiente de 25 °C:

TJ25+124=149CT_J\approx25+124=149^\circ C

Isso mostra por que um TO-220 pode esquentar muito mesmo dissipando poucos watts sem dissipador adequado.

18. Como o PWM controla a potência?

PWM significa modulação por largura de pulso. Em vez de manter o MOSFET parcialmente ligado, o circuito alterna rapidamente entre:

  • completamente desligado;
  • completamente ligado.

A proporção do período em que ele permanece ligado é o duty cycle:

D=tonTD=\frac{t_{on}}{T}

Se o período for 100 µs e o MOSFET ficar ligado durante 25 µs:

D=25100=0,25=25%D=\frac{25}{100}=0{,}25=25\%
flowchart LR
  A["MOSFET liga"] --> B["Carga recebe energia"]
  B --> C["MOSFET desliga"]
  C --> D["Energia é interrompida ou recirculada"]
  D --> A
O duty cycle determina a fração do período em que a carga recebe energia.
Em uma aproximação para corrente praticamente constante durante o tempo ligado:PcondI2RDS(on)DP_{cond}\approx I^2\cdot R_{DS(on)}\cdot D

O PWM normalmente é mais eficiente que controlar a potência deixando o MOSFET continuamente no meio do caminho, pois reduz o tempo de operação com corrente e tensão elevadas simultaneamente.

19. Perdas de comutação

O MOSFET não muda de desligado para ligado instantaneamente. Durante alguns nanossegundos ou microssegundos, coexistem corrente e tensão.

Uma aproximação inicial para as perdas é:

Psw12VDSID(tr+tf)fsP_{sw}\approx\frac{1}{2}V_{DS}I_D\left(t_r+t_f\right)f_s

Nas condições de teste do IRF3205:

  • td(on) = 14 ns típico;
  • tr = 101 ns típico;
  • td(off) = 50 ns típico;
  • tf = 65 ns típico.

Esses resultados foram obtidos com:

  • VDD = 28 V;
  • ID = 62 A;
  • VGS = 10 V;
  • RG = 4,5 Ω.

Utilizando 20 kHz apenas como exemplo:

Psw122862(101+65)ns20kHzP_{sw}\approx\frac{1}{2}\cdot28\cdot62\cdot(101+65)\,ns\cdot20\,kHzPsw2,9WP_{sw}\approx2{,}9\,W

Esse valor é somente uma estimativa. Uma carga indutiva, o diodo de corpo, os componentes parasitas e o layout podem alterar bastante o resultado.

20. Como interpretar os gráficos do datasheet

Os gráficos não são decoração. Eles mostram como o componente muda de comportamento quando alteramos tensão, corrente, temperatura, duração do pulso e frequência.

Antes de ler qualquer gráfico, execute quatro passos:

  1. leia o nome do eixo horizontal;
  2. leia o nome do eixo vertical;
  3. verifique se a escala é linear ou logarítmica;
  4. leia todas as condições escritas dentro ou abaixo do gráfico.

20.1 Gráficos de características de saída

Esses gráficos relacionam:

  • eixo horizontal: tensão VDS;
  • eixo vertical: corrente ID;
  • cada linha: uma tensão VGS diferente.

Na parte inclinada próxima da origem, o MOSFET comporta-se aproximadamente como uma resistência. Quanto mais inclinada para cima for a curva, menor é a resistência aparente.

Na parte em que a curva se torna mais horizontal, o MOSFET está na região ativa. Nessa região ele pode apresentar corrente elevada e tensão elevada ao mesmo tempo, produzindo muita potência.

O datasheet mostra curvas em 25 °C e 175 °C. Perto do limiar, o componente quente pode começar a conduzir com uma tensão de gate menor. Porém, quando plenamente ligado, sua resistência é maior. São comportamentos de regiões diferentes.

20.2 Gráfico de transferência

Relaciona ID com VGS. Ele ajuda a visualizar o início da condução e a sensibilidade à temperatura.

No IRF3205, a curva é típica, utiliza VDS = 25 V e pulsos curtos de 20 µs. Não deve ser usada como garantia de que “com 5 V o componente conduz determinado número de ampères”.

20.3 Gráfico de RDS(on) versus temperatura

O valor no eixo vertical é normalizado. Em 25 °C ele vale 1. Para descobrir a resistência aproximada em outra temperatura, multiplique o valor de referência pelo fator indicado.

20.4 Gráfico de capacitâncias

O IRF3205 apresenta valores típicos aproximados:

  • Ciss = 3247 pF;
  • Coss = 781 pF;
  • Crss = 211 pF.

As relações simplificadas são:

Ciss=CGS+CGDC_{iss}=C_{GS}+C_{GD}Coss=CDS+CGDC_{oss}=C_{DS}+C_{GD}Crss=CGDC_{rss}=C_{GD}

Essas capacitâncias variam com VDS. Por isso, para projetar o driver, a carga de gate costuma ser mais útil que simplesmente multiplicar Ciss por uma resistência.

20.5 Gráfico de gate charge

O eixo horizontal mostra a carga acumulada no gate. O vertical mostra VGS. O trecho praticamente horizontal é o platô Miller.

Esse gráfico permite estimar:

  • carga necessária até o limiar;
  • carga para estabelecer a corrente;
  • carga para modificar VDS;
  • esforço total exigido do driver.

20.6 Gráfico de área segura de operação

O gráfico SOA relaciona corrente e tensão para diferentes durações de pulso, como 10 µs, 100 µs, 1 ms e 10 ms.

Para utilizá-lo, você precisa conhecer:

  • a tensão sobre o MOSFET durante o evento;
  • a corrente que o atravessa;
  • a duração do evento;
  • a temperatura inicial;
  • a repetição ou duty cycle.
flowchart TD
  A["Medir ou calcular VDS"] --> B["Medir ou calcular ID"]
  B --> C["Determinar duração do pulso"]
  C --> D["Escolher curva SOA correspondente"]
  D --> E{"Ponto está abaixo da curva?"}
  E -->|Sim| F["Prosseguir com margem"]
  E -->|Não| G["Reprojetar o circuito"]
Tensão e corrente não devem ser analisadas separadamente.

As limitações do SOA podem vir de:

  • RDS(on);
  • corrente do chip e do encapsulamento;
  • potência instantânea;
  • aquecimento durante o pulso;
  • instabilidade térmica;
  • tensão de ruptura.

20.7 Gráfico do diodo interno

Relaciona a corrente reversa com a tensão VSD. Ele mostra que o diodo interno não é ideal: existe queda de tensão e, portanto, dissipação.

20.8 Corrente versus temperatura do case

À medida que o case aquece, a corrente permitida diminui. Em 175 °C, não existe margem térmica para continuar produzindo calor.

20.9 Impedância térmica transitória

O gráfico ZθJC mostra que pulsos curtos não aquecem toda a estrutura instantaneamente. A temperatura de pico pode ser estimada por:

TJ(pico)=TC+PpulsoZθJCT_{J(pico)}=T_C+P_{pulso}\cdot Z_{\theta JC}

Em sinais repetitivos, deve-se usar a curva correspondente ao duty cycle. Um único pulso e uma sequência contínua de pulsos não produzem o mesmo aquecimento.

21. O diodo de corpo

Todo MOSFET de potência como o IRF3205 contém uma junção interna que aparece no símbolo como um diodo. No MOSFET de canal N:

  • o ânodo do diodo fica no source;
  • o cátodo fica no drain;
  • ele conduz corrente no sentido Source → Drain.

O datasheet apresenta aproximadamente:

  • queda direta VSD máxima de 1,3 V a 62 A;
  • trr típico de 69 ns e máximo de 104 ns;
  • Qrr típico de 143 nC e máximo de 215 nC.

Em uma ponte H ou meia ponte, o diodo pode conduzir durante a comutação. Quando precisa bloquear novamente, ainda existem cargas armazenadas. Por alguns instantes aparece uma corrente reversa chamada corrente de recuperação.

Essa recuperação pode produzir:

  • picos de corrente;
  • perdas extras;
  • ringing;
  • overshoot;
  • interferência eletromagnética.

22. O que é avalanche?

Uma bobina armazena energia em seu campo magnético:

EL=12LI2E_L=\frac{1}{2}LI^2

Quando a corrente é interrompida, a bobina tenta manter essa corrente. Para conseguir isso, ela eleva sua tensão.

Se não houver um caminho externo para a energia, a tensão Drain–Source pode subir até o MOSFET entrar em avalanche. Nessa condição, ele conduz apesar de estar acima da tensão de ruptura e transforma a energia magnética em calor dentro do chip.

flowchart LR
  A["MOSFET ligado"] --> B["Corrente cresce na bobina"]
  B --> C["Campo magnético armazena energia"]
  C --> D["MOSFET desliga"]
  D --> E["Bobina tenta manter a corrente"]
  E --> F["Tensão sobe"]
  F --> G["Diodo, TVS, snubber ou avalanche absorve energia"]
A energia do campo magnético precisa encontrar um caminho após o desligamento.

No ensaio do IRF3205 são utilizados aproximadamente:

  • L = 138 µH;
  • IAS = 62 A;
  • RG = 25 Ω;
  • temperatura inicial de 25 °C.

A energia armazenada é:

E=12138μH622265mJE=\frac{1}{2}\cdot138\,\mu H\cdot62^2\approx265\,mJ

O datasheet apresenta 264 mJ como valor calculado limitado à temperatura máxima. Também mostra aproximadamente 1050 mJ como valor típico na destruição, acompanhado da advertência de que isso representa operação fora dos limites nominais.

Não projete o circuito para utilizar repetidamente os 1050 mJ. Esse número caracteriza aproximadamente a destruição de amostras, não uma condição normal ou garantida de funcionamento.

23. Circuitos de ensaio do datasheet

Os circuitos de teste mostram como o fabricante obteve os números apresentados. Eles não são necessariamente circuitos prontos de aplicação, mas são essenciais para entender as condições das medições.

23.1 Ensaio dos tempos de comutação

Nesse ensaio, o MOSFET controla uma carga a partir de uma fonte definida. Um gerador aplica pulsos ao gate através de uma resistência conhecida. O osciloscópio observa VGS e VDS.

Circuito simplificado para medir os tempos de comutação do IRF3205
Os resultados dependem da tensão, corrente, resistência de gate e capacidade do driver.

Os tempos são medidos entre pontos definidos das formas de onda, normalmente 10% e 90%.

Se você trocar o resistor de gate, driver, corrente, tensão ou layout, obterá tempos diferentes. Por isso os tempos da tabela sempre devem ser lidos junto com as condições do ensaio.

23.2 Ensaio de carga de gate

O teste mantém a corrente de drain e a tensão do circuito em condições definidas. Uma corrente constante carrega o gate enquanto se mede VGS.

QG=IGtQ_G=I_G\cdot t

Como a corrente de gate é conhecida, o tempo pode ser convertido em carga.

Circuito conceitual do ensaio de carga de gate
Uma corrente constante carrega o gate enquanto VGS e VDS são observadas.

D.U.T. significa Device Under Test, ou dispositivo sob teste.

23.3 Ensaio de avalanche com indutor sem clamp

O MOSFET é ligado para acumular energia em um indutor. Em seguida é desligado sem que um diodo flyback limite imediatamente a tensão.

Circuito simplificado do teste de avalanche por carga indutiva não limitada
Ao desligar Q1, a energia do indutor força o MOSFET a entrar em avalanche.

Esse ensaio verifica a robustez em avalanche. Ele não significa que seja uma boa prática deixar toda carga indutiva descarregar repetidamente dentro do MOSFET.

23.4 Ensaio de recuperação reversa

O diodo de corpo é primeiro colocado em condução. Depois, outro dispositivo força a corrente a mudar de caminho. O instrumento mede quanto tempo e quanta carga o diodo necessita para recuperar a capacidade de bloquear.

Meia ponte simplificada para ensaio de recuperação reversa do diodo de corpo
A comutação do transistor complementar força a recuperação do diodo interno do dispositivo sob teste.

Esse teste explica os parâmetros trr, Qrr, di/dt e dv/dt encontrados na seção do diodo.

24. Primeiro circuito prático: controlar uma lâmpada de 12 V

Uma lâmpada automotiva de baixa potência ou uma carga resistiva é um primeiro experimento mais simples que uma bobina, porque não produz o mesmo tipo de força contraeletromotriz no desligamento.

Utilize:

  • fonte de 12 V com limitação de corrente;
  • lâmpada ou resistor de potência compatível;
  • IRF3205;
  • driver de gate alimentado com 10–12 V;
  • resistor de gate de 10 Ω;
  • resistor Gate–Source de 10 kΩ;
  • fusível apropriado;
  • multímetro e, se disponível, osciloscópio.
Circuito prático para controlar uma lâmpada de 12 V com IRF3205
Montagem low-side com driver de gate e resistor de desligamento.

Faça as primeiras verificações com baixa corrente. Não utilize protoboard para dezenas de ampères. Protoboards, jumpers finos e conectores pequenos acrescentam resistência, aquecimento e indutância.

25. Segundo circuito prático: controlar um solenoide

Uma bobina produz um pico de tensão quando a corrente é interrompida. No circuito mais simples, um diodo flyback fornece um caminho de recirculação.

Acionamento de solenoide de 12 V com IRF3205 e diodo flyback
O diodo DF conduz a corrente da bobina após o desligamento do MOSFET.

O diodo deve ficar reversamente polarizado enquanto a bobina está energizada:

  • cátodo no positivo da alimentação;
  • ânodo no lado do drain.

Quando o MOSFET desliga, o diodo conduz e limita a tensão. A desvantagem é que a corrente da bobina decai mais lentamente.

Se o objetivo exigir desligamento rápido, podem ser utilizados TVS, diodo com zener, snubber RCD ou clamp ativo. A tensão precisa permanecer abaixo do limite do MOSFET com margem suficiente.

26. Por que usar um driver entre o microcontrolador e o IRF3205?

O ESP32 e muitos STM32 trabalham com 3,3 V. O IRF3205 tem RDS(on) garantido em 10 V. Além disso, o GPIO possui capacidade limitada de carregar e descarregar os 146 nC do gate.

O driver resolve três problemas:

  1. converte o comando de 3,3 V em aproximadamente 10–12 V;
  2. fornece corrente de pico elevada para carga rápida do gate;
  3. retira rapidamente a carga para desligar o MOSFET.
flowchart TD
  A["GPIO 3,3 V"] --> B["Entrada lógica do driver"]
  B --> C["Saída forte de 10--12 V"]
  C --> D["Carrega o gate rapidamente"]
  C --> E["Descarrega o gate rapidamente"]
  D --> F["Menor tempo de ligação"]
  E --> G["Menor tempo de desligamento"]
O driver faz a interface entre a lógica de controle e o MOSFET de potência.

Em uma experiência de corrente muito baixa, o IRF3205 pode aparentar funcionar com 3,3 V. Isso não transforma o comportamento observado em uma especificação garantida.

27. Valores típicos, máximos e absolutos

Tipo de informação
Como interpretar
Mínimo
Valor inferior garantido nas condições indicadas
Típico
Comportamento representativo; não é garantido para toda unidade
Máximo
Valor superior garantido nas condições do teste
Máximo absoluto
Fronteira de dano; não é ponto normal de operação
Curva típica
Ajuda a compreender tendências, mas não substitui especificações garantidas
Condição de teste
Define exatamente quando o número é válido

Um erro frequente é combinar:

  • corrente máxima medida com case frio;
  • resistência típica em vez da máxima;
  • tensão exatamente no limite;
  • temperatura ambiente sem considerar a junção;
  • tempos de comutação de outro driver.

Esse “MOSFET imaginário” teria todas as melhores características ao mesmo tempo, mas não corresponderia às condições reais do datasheet.

28. Resumo das principais características do IRF3205

Característica
Valor da revisão estudada
Significado prático
Tipo
Canal N
Conveniente para chaveamento low-side
VDSS
55 V
Limite absoluto Drain–Source
ID a TC = 25 °C
110 A
Valor térmico calculado sob condições especiais
Limite citado do package
75 A
Restrição física do encapsulamento
IDM
390 A
Somente pulso e dentro do SOA
RDS(on)
8 mΩ máximo
Garantido com VGS = 10 V nas condições do teste
VGS(th)
2–4 V
Início da condução a apenas 250 µA
VGS absoluto
±20 V
Limite da camada isolante do gate
TJ
−55 a 175 °C
Faixa absoluta de temperatura da junção
Qg
146 nC máximo
Carga que o driver precisa movimentar
Qgd
54 nC máximo
Carga relacionada ao platô Miller
VSD
1,3 V máximo
Queda no diodo de corpo nas condições do teste
RθJC
0,75 °C/W
Resistência térmica junção-case

29. Procedimento universal para escolher um MOSFET

flowchart TD
  A["Confirmar fabricante, código e package"] --> B["Definir tensão máxima real"]
  B --> C["Verificar tensão disponível no gate"]
  C --> D["Calcular perdas de condução"]
  D --> E["Calcular perdas de comutação"]
  E --> F["Verificar SOA e avalanche"]
  F --> G["Analisar diodo de corpo"]
  G --> H["Projetar dissipação térmica"]
  H --> I["Validar com osciloscópio e temperatura"]
A seleção correta envolve aspectos elétricos, dinâmicos e térmicos.

Passo 1 — Confirme a identidade

Verifique fabricante, código completo, sufixo, revisão, encapsulamento e pinagem. Componentes de fabricantes diferentes podem utilizar o mesmo nome comercial e apresentar características diferentes.

Passo 2 — Escolha a classe de tensão

Considere a tensão nominal, máxima, surtos, ringing, energia indutiva e margem de segurança. Nunca compare somente a fonte nominal com VDSS.

Passo 3 — Verifique o acionamento do gate

Procure RDS(on) garantido na tensão que o driver realmente entregará entre Gate e Source.

Passo 4 — Calcule perdas de condução

Pcond=IRMS2RDS(on),quenteP_{cond}=I_{RMS}^2\cdot R_{DS(on),quente}

Passo 5 — Calcule perdas de comutação

Considere Qg, Qgd, corrente do driver, resistência de gate, frequência, tensão, corrente e recuperação do diodo.

Passo 6 — Verifique o SOA

Esse passo é indispensável em partida de motores, carga de capacitores, limitação de corrente, curto-circuito, solenoides, hot-swap e transições lentas.

Passo 7 — Analise o diodo

Verifique VSD, trr, Qrr, corrente, di/dt e dv/dt.

Passo 8 — Faça o projeto térmico

Some todas as perdas e calcule a temperatura da junção. Não trate 175 °C como temperatura desejável de trabalho.

Passo 9 — Valide na bancada

Meça:

  • VGS diretamente entre Gate e Source;
  • VDS durante ligação e desligamento;
  • corrente da carga;
  • overshoot;
  • ringing;
  • tempo de subida e descida;
  • temperatura do case.

Ao medir sinais rápidos, utilize uma conexão de terra curta na ponta do osciloscópio. Um fio comprido acrescenta indutância e pode mostrar oscilações que não representam fielmente o circuito.

30. Erros comuns ao utilizar o IRF3205

  1. Usar 3,3 V diretamente no gate e esperar os 8 mΩ. A resistência máxima é garantida em 10 V.
  2. Interpretar VGS(th) como tensão de acionamento. O limiar é medido com somente 250 µA.
  3. Esperar 110 A em protoboard. O circuito inteiro, e não apenas o silício, precisa conduzir a corrente.
  4. Usar 55 V como tensão normal. Esse é um limite absoluto sem margem para surtos.
  5. Ignorar a temperatura. RDS(on) aumenta conforme a junção aquece.
  6. Não colocar resistor Gate–Source. Um gate flutuante pode ligar por ruído ou carga acumulada.
  7. Ignorar o pico da bobina. A energia indutiva precisa de um caminho seguro.
  8. Colocar o driver longe do MOSFET. Trilhas longas aumentam indutâncias parasitas.
  9. Usar o valor típico como garantia. O projeto deve respeitar valores máximos, mínimos e margens.
  10. Não verificar o SOA. Tensão e corrente isoladamente podem estar dentro dos limites enquanto a combinação é destrutiva.

31. Exercícios para consolidar o aprendizado

Exercício 1 — Perda a frio

Calcule a perda de condução de um IRF3205 com 15 A e resistência de 8 mΩ.

P=1520,008P=15^2\cdot0{,}008

Resultado esperado:

P=1,8WP=1{,}8\,W

Exercício 2 — Efeito da temperatura

Se a resistência aumentar 70%, qual será a nova perda a 15 A?

Rquente=8mΩ1,7=13,6mΩR_{quente}=8\,m\Omega\cdot1{,}7=13{,}6\,m\OmegaP=1520,0136=3,06WP=15^2\cdot0{,}0136=3{,}06\,W

Exercício 3 — Energia de uma bobina

Uma bobina de 1 mH conduz 10 A. Qual energia precisa ser absorvida no desligamento?

E=121mH102=50mJE=\frac{1}{2}\cdot1\,mH\cdot10^2=50\,mJ

Exercício 4 — Corrente média do gate

Utilizando Qg = 146 nC em 10 kHz:

IG(avg)=146nC10kHz=1,46mAI_{G(avg)}=146\,nC\cdot10\,kHz=1{,}46\,mA

Explique por que, apesar dessa corrente média pequena, ainda pode ser necessário um driver de 1 A ou mais. A resposta está na corrente de pico e no tempo desejado de comutação.

32. Glossário rápido

VDS Tensão entre drain e source. VGS Tensão entre gate e source. ID Corrente de drain. RDS(on) Resistência Drain–Source com o MOSFET ligado. VGS(th) Tensão de início da formação do canal, medida com corrente muito pequena. Qg Carga total necessária no gate. Qgd Carga Gate–Drain associada ao platô Miller. SOA Área segura de operação combinando tensão, corrente e duração. Avalanche Condução durante a ruptura Drain–Source para absorção de energia. RθJC Resistência térmica entre junção e case. trr Tempo de recuperação reversa do diodo. Qrr Carga movimentada durante a recuperação reversa. dv/dt Velocidade de variação da tensão. di/dt Velocidade de variação da corrente. D.U.T. Dispositivo sob teste.

33. Conclusão

O IRF3205 é um MOSFET de potência de canal N, desenvolvido para aplicações de baixa tensão e corrente elevada. Entretanto, seus números principais só fazem sentido quando acompanhados das respectivas condições.

As lições mais importantes são:

  1. VGS(th) não é a tensão para ligar completamente o MOSFET;
  2. o IRF3205 precisa de aproximadamente 10 V no gate para apresentar a resistência garantida;
  3. a perda de condução cresce com o quadrado da corrente;
  4. RDS(on) aumenta quando o componente aquece;
  5. os 110 A não representam uma corrente prática automática;
  6. o limite de 55 V precisa incluir margem para transientes;
  7. o gate precisa de corrente durante as transições;
  8. a área segura combina tensão, corrente, tempo e temperatura;
  9. cargas indutivas precisam de caminho para a energia armazenada;
  10. o datasheet deve ser lido como um conjunto, e não como uma lista de números independentes.

Ao compreender esses pontos, você deixa de perguntar apenas “quantos ampères este MOSFET suporta?” e passa a perguntar:

Qual tensão realmente aparecerá sobre ele? Qual será a corrente RMS e de pico? Qual tensão o driver entregará entre Gate e Source? Quanto tempo duram as transições? Qual será a resistência quando estiver quente? A energia da carga indutiva irá para onde? E qual temperatura a junção atingirá?

Essas perguntas formam a base para interpretar não apenas o IRF3205, mas praticamente qualquer datasheet de MOSFET de potência.

Referências técnicas

Revision history

  1. Editorial revision
  2. Editorial revision
  3. Editorial revision
  4. Editorial revision

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